domingo, 9 de setembro de 2012

se a gente perder essas
nossas
pernas de estrada essa nossa
luz no fim de cada
fôlego

o que?

: os meus relatórios como
uma ficção emocionada
feita pra não emocionar
muito

só que o fogo ainda funciona perfeito
como quando foi inventado

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

mudar de vida a
cada noite e
mudar de novo a
cada dia

o piloto automático é
dócil que nem uma
torradeira ele só
olha e vai eu até aceno
de vez em quando daqui
do canto do olho
dum tremor dum suor assim
meio nervoso

mas nada se compara a isso:
só olha
e vai

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

pode colocar o
que quiser na
parede uma gaiola
precisa de vida e
de decoração pesada
e de uma porta grande
pra alguma mão me puxar
de dentro dela

o ideal é encontrar as
chaves e só voltar
com uma samambaia viva
e forte pra pendurar nas
grades da janela

depois disso dá até
pra sentir a liberdade e
a diferença entre o
cheiro do chão e o
da sola do sapato

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

dentro do prato de sobremesa o pedido de sempre:
salada de batata gelada de domingo meidia
então sentar de frente pra tevê e de costas pra porta
jason statham incendeia, quebra e mata, tudo isso
entre uma câmera aérea e os gritinhos do maquiador
um lindo morcego entra pela chaminé e se instala
nalgum canto atrás da porta
é barulho de morcego, sem dúvida
ele não faz mal ele engordou comendo frutas e
mosquitos que engordaram comendo sangue
muito provavelmente sangue humano
depósito na minha conta corrente todo mês
megadepósito na conta de jason statham a cada murro distribuído

o morcego engorda comendo frutas e sangue humano quieto
lá no canto dele: olhos de eremita: um exemplo a seguir

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

palavra por
frase ponto e
um gesto que
não quis dizer
muita coisa não:
vai pro fogo

pra bom entendedor
um contexto é
completo como só um
contexto consegue
há um significado
amplo
justamente fora da
linha: mas então:
não tinha que ser
mas foi ou
viceversa ou os
dois

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Carta antiga

Eu quero receber uma carta com o cheiro de amor antigo
Com aquela fragância que o tempo perdeu
O papel mais espesso e até não tão branco
Quero aquela carta carta que me faça lembrar de muita coisa de você e eu.

Quero lá do fundo da gaveta trazer as lembranças
As lembranças que o criado mudo guardou calado
Quero sorrir com saudosismo do amor que me escreveu
Vou toca-la leve pra sentir o relevo da tinta que marcou o outro lado

Ah, eu quero te dizer que custou tanto chegar, mas a carta chegou sem fantasia
A recebi com o carinho de quem reencontra um amor antigo
E que lhe degusta até por magnetismo quem aquela letra escrevia

E receber a carta que eu a lerei depois e revê-la em pensamento ao contar para um amigo
Vou dobrar com carinho a carta que jamais foi esquecida
Uma carta de amor antiga e que sempre estaria comigo

Maturidade

Sempre ouvi dizer
pra crescer e ser alguém na vida,
mas quem eu sempre quis ser
sou eu mesmo.

Tem um amigo meu
que é alguém na vida.
ele é um médico,
não ele mesmo.

Muita gente diz
que eu devo crescer,
mas quem eu quero ser
quando crescer?

Ramiro Mateus Modica